Pela janela, a chuva ameaçava cair.
- Gostaria de esperar mais um pouco – disse, dando a entender que era meramente por causa do mau tempo.
Estávamos deitados naquele tapete de crochê há horas, e mesmo assim nenhum de nós parecia se importar. De minha parte, confesso que gostava de passar os domingos dessa forma, preguiçosamente. A barriga reclamou um pouco e me dei a liberdade de ir à cozinha preparar um leite quente. Fazia um vento frio; deixei a panela esquentando e voltei para o aconchego das cobertas. Aproveitei e pus um disco do Pink Floyd que eu não conhecia pra tocar.
- Dizem que o joelho é o espelho do corpo – disse, fixando o olhar de uma forma que me deixou incomodada. – O seu não é dos mais bonitos.
De vez em quando, Luiz tinha dessas coisas; aquele, por exemplo, era o tipo de comentário que para mim era completamente desnecessário, tanto quanto os que se sucederam: começou a discorrer sobre a beleza feminina, sobre o gingado das mulheres e explicar por que preferia àquelas que pareciam flutuar.
Quis desviar do assunto, mas não vinha nada em mente. Notei que, acima de nós, despencava uma samambaia. Fiquei pensando nela por alguns segundos. Estava um pouco murcha e parecia precisar de água. Lá fora, no alpendre, vi que alguns passarinhos procuravam abrigo. “Não importa”, pensei, “levanta, toma teu leite e vai resolver tuas coisas.” Afinal de contas, não era justo culpá-lo por meu aborrecimento. Quando estava prestes a me levantar, senti Luiz tocar meu braço.
- Teresa, olha. Acho que vai fazer muito frio. Tava pensando que, se você quiser, a gente pode ficar por aqui até amanhã.
Ele sorriu e me deu um beijo. A chaleira começou a apitar. Os pingos bateram na janela.
De fato, choveu bastante naquela noite.