26/08/2017

Sem título

Jonas Mekas

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31/07/2017

– Mas, afinal, o que fazer diante de tudo isso?
– Também não faço ideia. Entretanto, me parece necessário abandonar tudo para ver então o que acontece.

Correspondência #02

28/07/2017

Juan,

Escrevo-te de uma praia que se assemelha a que visitamos na última viagem que estivemos juntos. Pela manhã, há de se percorrer quilômetros de areia até chegar ao mar, que nessa época costuma regredir durante a madrugada. São inúmeras as conchinhas com as quais posso me distrair; ao longe, vejo as casas do que outrora chamei de nativos, como se não se tratasse de gente como eu.

Escolhi armar a barraca nessa grande extensão de areia, assegurando-me de estar distante o suficiente para evitar possíveis intervenções. Tudo é muito branco aqui, e meus olhos estão ainda se acostumando com o sol forte e a claridade demasiada. A contagem do tempo já não faz tanto sentido; não saberia dizer a quantos dias cheguei ou até quando vou ficar. Não há muito o que fazer; passo os dias catando conchinhas e devolvendo-as à areia quando escurece, tomo banho de mar quando dá vontade e começo a distinguir alguns sons do que antes chamaria de silêncio. Tenho também descoberto o que é sentir fome, afinal.

Enfim, estou só, e não é exagero quando digo que a solidão aqui tem gosto e, diria até, textura. Quando se dá por ficar assim, você acaba ouvindo vozes; já aconteceu contigo? Desconfio que elas surjam de um lugar escuro e escorregadio; é como posso tentar descrever.

Agora, tenho meus pés dentro d´água. Daqui em diante, um mar de incertezas. Daqui em diante, uma liberdade arrebatadora.

Ao longe, nuvens carregadas anunciam um temporal. Não há abrigo, apenas algumas palhoças abandonadas, que não protegem nem da chuva nem do vento. Não há sinal de internet, celular, TV, correios. Mesmo assim, no ímpeto de compartilhar, percebo-me escrevendo como um autômato esta carta.

(Mais uma voz surge sorrateiramente; não entendo bem o que querem dizer, mas as deixo falar mesmo assim.)

Resta-me, então, jogar esta garrafa ao mar, já perdendo a esperança de que chegue a alguém.

Sinto que é hora de ir ter com a chuva. Em breve, será a sua também.

Esta é minha forma de dizer adeus e, talvez, um até logo.

Desta vez, com amor,
Marília

O Segredo das Águas

28/06/2017

Estive um tempo na Islândia:
Lá, onde os Touros correm livremente,
não me ofereceram carne ou instrumentos de caça;
Banharam-me em águas secretas,
ensinaram-me uma língua adormecida.

Agora, firmo os pés na terra e já não temo o fogo;
Faço das árvores minhas conselheiras
e, dos pássaros, desfruto de boa companhia.

Vejo ao horizonte uma paisagem reveladora;
E sinto-me, enfim, em uma encruzilhada:
Será chegada a hora da rendição?

[Rascunho de 2015, atualizado em 2017]

Transmutação

28/06/2017

I

Certo dia, encontrei uma árvore encravada em meu peito.
Quando a percebi, já era grande e frondosa.
Espantada em vê-la ali, já tão bem alojada,
passei então a tentar conviver com o que carregava.
Vez por outra, podava seus galhos
(e até desconfio que a tenha regado um punhado de vezes),
mas bastava um movimento a mais e ela já me limitava o passo.

II

Hoje, enxerguei novamente a árvore,
cada vez maior e mais pesada.
Com a mente mais clara e ouvidos atentos,
rogo por firmeza, mas não rigidez.
A árvore que trago no peito não sou eu.
Sei que cortar seu tronco já não é suficiente,
e, seguindo o conselho que me foi dado,
parto em busca das ferramentas necessárias.

III

arrancar raízes:
ver-me terra fofa, arada,
abrindo espaços vazios
– adentro.

Ananda

24/12/2016

come to you, river
wash my soul again

Ouvir música, pôr em dia a casa e as leituras, cozinhar e cuidar da saúde; eram assim os dias de introspecção, como costumava chamar. Os mais próximos já entendiam quando era chegado esse tempo. Ela, se antes encarava com estranhamento tal comportamento cíclico, agora já se habituara e não escondia a felicidade que sentia quando chegava a hora de suspender compromissos e despistar contatos. Mas havia exceções, é claro. Ananda era uma dessas pessoas.

O convite inesperado para ir à sua casa foi suficiente para deixá-la radiante e abandonar a solitude habitual daqueles dias. Ananda não era uma pessoa comum, Clara sentia. Era discreta, mas dificilmente passava despercebida na rua. Era corriqueiro que, à primeira vista, desconhecidos a dissessem o quanto o sorriso dela inspirava coisas boas.

De fato, Ananda era profundamente admirável, e só de estar por perto, Clara já se sentia mais serena. No entanto, naquele dia, enquanto falava com Clara, confidenciou sentimentos embaralhados. “Há um peso não sei de onde“, comentou. Parecia haver ali um medo de se dar forma, através das palavras, ao peso que carregamos, e assim olhá-lo tão brutalmente. Talvez fosse por isso que Ananda fizesse tantos arrodeios.

Clara, por sua vez, também tinha seus problemas, e o que parecia as unir era poder falar sobre tudo, inclusive as coisas mais nebulosas. Assim como Ananda, Clara era também muito amorosa, embora não demonstrasse com palavras. Mas isso não importava. A forma em que apertava o abraço chamavam atenção de Ananda. Era como se o corpo dissesse claramente o que o discurso omitia.

***

Quando conversavam, Clara costumava mais ouvir do que falar, e naquele dia não foi diferente. Estavam no parque, deitadas no chão observando a copa das árvores, quando Ananda confidenciou um prazer recente: dançar. Estava saindo mais nos últimos tempos, e dançava de tal forma que seus pés ficavam inchados no dia seguinte.É como se me comunicasse de uma forma mais sutil com as pessoas”. Ananda preocupava-se realmente em encontrar coerência e verdade no que decidisse dedicar sua energia, fosse através da dança, literatura ou teatro. Queria que meu corpo fosse canal da essência que quero pôr no mundo”, era mais ou menos o que parecia querer dizer.

Clara ficou em silêncio. Ela entendia, e naquele momento as duas pareciam conectadas de forma sincera e profunda. Olhou para Ananda e voltou a observar as folhas das árvores que remexiam e emitiam um ruído calmo e prazeroso. E ali ocorreu-lhe algo que nunca havia pensado. Se nossos gestos tomam forma através de um corpo e os discursos pela linguagem, estaríamos conscientes deste poder? Quando me expresso, de onde parte esse impulso criador?

Esse questionamento passou a acompanhar Clara desde então.

***

Clara e Ananda se conheciam desde a adolescência, e há muitos anos acompanhavam as mudanças de cada uma. Naquele dia, falaram mais uma vez sobre o tempo. Relembraram histórias de quando eram jovens e imaginaram-se mais velhas. Teriam filhos? Cuidariam de gatos? Prefeririam chá ou café? Parecia que a vida, de uma maneira geral, era o assunto principal.

Mas agora, sentiam que algo destoava. As duas estavam diferentes, é certo, mas não sabiam bem o porquê. Então, Clara resolveu relatar um causo recente a Ananda.

Contou que, certo dia, foi comprar pão e percebeu que outras mulheres sorriam quando seu olhar cruzava com os delas. Antes, Clara desviaria. Mas ali, sustentou o olhar e sorriu de volta. A partir de então, algo mudou. Sentiu-se como se apresentada a uma espécie de grupo secreto, do qual ninguém falava sobre, mas que, quando se olhavam, reconheciam-se. Dias depois, pensando no ocorrido, lembrou que se encontrava tão alegre que seu corpo parecia cantar; aquilo deveria ter sido notado, foi sua tese. “Você estava transbordante”, Ananda comentou. “Na verdade, continua assim. Percebe?”.

Clara achou graça. Transbordante era um adjetivo que sempre caíra muito bem em Ananda. Tentou clarear a questão:

– Na verdade, é como se algo estivesse desobstruindo. Sinto também que, quando falo, a voz soa estranha, como se viesse de dentro. É uma sensação nova -, observou.

***

De fato, uma mudança se processava. Eram coisas miúdas, discretas, que poderiam facilmente passar despercebidas para os outros. Não para elas.

Agora, era Ananda que ouvia com atenção. Enquanto Clara falava, os pensamentos iam parecendo menos enevoados. E, diante do olhar acolhedor e silente de Ananda, prosseguiu:

– Há alguns dias, dei por observar árvores e tive a impressão de que elas dançavam. Certa vez, pude jurar que conversavam, e pensei se em algum momento soubera seu idioma, ou se um dia as entenderia. Isso tem sido corriqueiro. Nesses momentos, sinto-me tomada por uma sensação tranquila e paralisante.   

E ali, Ananda entendeu. Sentiu-se totalmente presente e compreendeu a raridade daquele momento. O que veio a seguir foi simplesmente a reverberação dessa consciência.

– Ouvi falar que os lobos, quando pressentem prazer ou perigo, ficam totalmente imóveis, em total concentração para poderem ver, ouvir e perceber o que exatamente está ali, na sua forma mais essencial. Acho que é isso, Clara.

Elas se olharam e sorriram em cumplicidade. Os braços se confundiram. Ali, havia uma beleza rara e delicada. Agradeceram por poder vivenciar momentos tão especiais e estar em companhia uma da outra. “Não há obstruções entre vozes que vêm da alma”, Clara pensou.

“Palavras que brotam de dentro são conscientes, profundas e transformadoras”, Ananda viria a escrever, dias depois.

do baú

04/12/2016

querer bem às plantas
é quase um atestado
de ser um humano desviado.
entendo a falta que faz
aquela árvore ou o amor genuíno
de outro animal.
não que desgoste de gente,
mas por vezes parecem as árvores
mais sábias e serenas
e os gatos mais simpáticos…

Leão

02/09/2016

– Tive um sonho que me pareceu muito real. Estava em uma espécie de savana e encontrava um leão. Era grande e estava a metros de distância. Eu podia ver seus dentes, sentir seu cheiro e até tocar aqueles pelos grossos e amarelados. Era tomado pelo medo; fragmentos de toda a minha vida se passaram em segundos e pensei que poderia morrer ali. Até que, não sei bem como, me inclinei e levei minha cabeça ao chão, como se estivesse a reverenciar aquele leão. E aí algo estranho aconteceu. Eu o vi fechar os olhos, e ao abri-los li neles uma grande generosidade e compreensão. Assim eu fui tomado por um amor grandioso, e assim eu acordei.

07/12/2015

Diz-que-direi ao senhor, o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro: brota é depois.

In: Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas

Rizomáticos

13/05/2015

onde há rupturas, reconstituição;
sejamos fluxo, conjunto
e, por ora,
arribação