Da chegada de Antúrio

Até então, os dias eram cinzentos. Estava em casa há dias, chorava sem motivos. Quando Ulisses perguntou-lhe o que havia, não soube o que dizer. Sentia as lágrimas virem aos olhos sem sentido. Na última vez que se atreveu a sair para resolver pendências, há cerca de três dias, retornou chorando copiosamente, após ter sido abordada por uma criança a lhe pedir dinheiro no semáforo. Não que crianças vivendo em situação de rua não fossem motivos para tristeza, apenas não naquelas proporções – agarrava-se àquele pensamento e entrava num círculo vicioso que o conectava a todas as desgraças do mundo.

Ulisses tinha bom coração e uma sensibilidade ímpar, e pressentia quando as coisas não andavam bem. Ouvindo a voz embargada de Ana, convidou-a a experimentar o almoço que estava preparando. Diante da recusa, intensificou a abordagem: pediu que viesse. Ana, reerguendo-se e tentando domar a pesada sensação que a prendia à cama, atendeu ao pedido e, em menos de uma hora, estava à mesa, junto a Ulisses e Emília.

Após a refeição, deitaram-se e falaram sobre o passado. Emília tinha voz tão leve e transmitia paz comparável a Ulisses. Por um momento sua fala a fez pensar no quanto havia caminhado e o quanto se sentia grata de estar ali, ao lado de tão boas companhias. Ana teve ainda a impressão de que os dois formariam um belo casal, apesar de serem apenas bons amigos. A acolhida lhe aliviou em parte o mal-estar, e finalmente foi capaz de adormecer tranquilamente.

***

Quando já se preparava para ir embora, Ulisses foi ao quintal e lhe entregou uma das plantas que, nascida involuntariamente no terreno, fora transplantada ainda ontem para um pequeno vaso. De seu nome e cuidados necessários, não soube dizer, mas orientou que a observasse e o cultivo fosse feito de acordo com a sucessão dos dias. “Não por acaso veio, não por acaso irá”, ele pensou.

O fato é que a planta serviu-lhe de companhia dali em diante. Tinha folhas alongadas e flores que lhe remetiam a um copo-de-leite. Os dias sucediam-se e sentia-se paulatinamente melhor. Passou a acreditar em suas características de cunho espiritual. Leu inúmeros livros em busca de indícios que confirmassem a suspeita, mas nada encontrou que se assemelhasse àquela planta. Resolveu então aproveitar o ensejo para mudar de ares e, como que numa iniciação, banhou-se em sal grosso. Olhava o horóscopo e, aos poucos, habituava-se à nova rotina: exercícios físicos, acordar cedo, alimentar-se bem. Tentava, embora com dificuldade, aprender a arte da culinária. Pensava que se não havia caminho pela consciência, que o bem-estar de seu corpo pudesse conduzir à tranquilidade almejada.

Cerca de três semanas depois, Emília a telefonou. Disse que se encontrava nas redondezas e perguntou se seria possível almoçarem juntas. Cumprimentaram-se brevemente e, dali a alguns instantes, Emília, junto a Ulisses e Yuri, ajudavam Ana na cozinha. Yuri comandava o fogão: perguntou se havia manjericão e, transparecendo certo orgulho, Ana o conduziu à pequena horta que começara a cultivar. Admirando a elegância do lugar, Yuri elogiou o bom gosto da amiga e, antes de voltar aos trabalhos, vislumbrou, no canto do cômodo, a imponente a planta que Ulisses presenteara Ana tempos atrás: as flores haviam crescido e parecia bastante saudável. Yuri surpreendeu-se por nunca ter visto um exemplar de tamanha beleza, mas orientou que, a despeito da elogiável adaptabilidade da espécie, Ana tivesse cuidado com o excesso de exposição ao sol. Acrescentou mais alguns conselhos sobre paisagismo, correta adubação e cultivo sustentável cujo sentido Ana não conseguiu compreender. Do lado de fora, um belo dia ensolarado. Em sua cabeça, uma palavra apenas: Antúrio era seu nome.

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