Correspondência

Caro Piotr,

Faz anos que não te escrevo, percebo agora. Talvez nosso último encontro tenha servido para aflorar o desejo pelas longas conversas de outrora. Naquele dia tive novamente insônia e dor de cabeça; meus amigos dizem ser preocupação, e não discordo. Vejo-me vasculhando lembranças constantemente, rememorando as transformações pelas quais tenho passado e, veja, eis que te encontro ali, acenando, vívido como nos verões de antigamente.

Nesses redemoinhos de pensamentos que não me permitem dormir, penso que talvez haja algo em sua natureza que te faça assim, itinerante, imprevisível e, sobretudo, consciente. Os laços firmados são raros, dos quais você parece ter controle e saber exatamente onde começam e até onde chegarão. Se há uma lógica, não cabe a nós entendermos. Lembrando de tudo isso, percebo uma montanha dentro de ti, Piotr, que você se assegura em continuar limitando o acesso. Penso que talvez o único aprofundamento possível seja sobre si mesmo, já que há tanto a ser descoberto.

Digo isso, mas peço que não me entenda mal. Apesar de tudo, enxergo a possibilidade de amor. Num canto pequeno, pouco propício, e que parece não querer prolongar-se. Hoje penso que o amor é, em parte, escolha. Mas além disso, algo que nos foge a compreensão; uma conexão que surge sem que se perceba, apenas passível de ser vista quando já está lá, devidamente alojada. Ainda assim, mais do que no inexplicável, acredito na reciprocidade e entrega verdadeira. Há certo charme quando se percebe uma compreensão mútua, isenta de preocupações alheias àqueles que se permitem.

Curioso como, ao falar de ti, por vezes parece que falo também de mim. A cada vez que penso, mais a insônia me invade e fico a percorrer círculos. Tento pensar na respiração, numa noite estrelada na qual me debruço, e só assim começo a adormecer. Porque eis tudo, Piotr. Noite adentro, ouço o roçar dos troncos dos eucaliptos nas vizinhanças, sinto o cheiro de flores de grandes árvores desconhecidas, e é como se me chamassem por um nome que me é estranho. Atendo ao convite; permito-me e vou balançar-me também.

Desejando-te sempre bons sonhos,

Emma.

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