Ananda

come to you, river
wash my soul again

Ouvir música, pôr em dia a casa e as leituras, cozinhar e cuidar da saúde; eram assim os dias de introspecção, como costumava chamar. Os mais próximos já entendiam quando era chegado esse tempo. Ela, se antes encarava com estranhamento tal comportamento cíclico, agora já se habituara e não escondia a felicidade que sentia quando chegava a hora de suspender compromissos e despistar contatos. Mas havia exceções, é claro. Ananda era uma dessas pessoas.

O convite inesperado para ir à sua casa foi suficiente para deixá-la radiante e abandonar a solitude habitual daqueles dias. Ananda não era uma pessoa comum, Clara sentia. Era discreta, mas dificilmente passava despercebida na rua. Era corriqueiro que, à primeira vista, desconhecidos a dissessem o quanto o sorriso dela inspirava coisas boas.

De fato, Ananda era profundamente admirável, e só de estar por perto, Clara já se sentia mais serena. No entanto, naquele dia, enquanto falava com Clara, confidenciou sentimentos embaralhados. “Há um peso não sei de onde“, comentou. Parecia haver ali um medo de se dar forma, através das palavras, ao peso que carregamos, e assim olhá-lo tão brutalmente. Talvez fosse por isso que Ananda fizesse tantos arrodeios.

Clara, por sua vez, também tinha seus problemas, e o que parecia as unir era poder falar sobre tudo, inclusive as coisas mais nebulosas. Assim como Ananda, Clara era também muito amorosa, embora não demonstrasse com palavras. Mas isso não importava. A forma em que apertava o abraço chamavam atenção de Ananda. Era como se o corpo dissesse claramente o que o discurso omitia.

***

Quando conversavam, Clara costumava mais ouvir do que falar, e naquele dia não foi diferente. Estavam no parque, deitadas no chão observando a copa das árvores, quando Ananda confidenciou um prazer recente: dançar. Estava saindo mais nos últimos tempos, e dançava de tal forma que seus pés ficavam inchados no dia seguinte.É como se me comunicasse de uma forma mais sutil com as pessoas”. Ananda preocupava-se realmente em encontrar coerência e verdade no que decidisse dedicar sua energia, fosse através da dança, literatura ou teatro. Queria que meu corpo fosse canal da essência que quero pôr no mundo”, era mais ou menos o que parecia querer dizer.

Clara ficou em silêncio. Ela entendia, e naquele momento as duas pareciam conectadas de forma sincera e profunda. Olhou para Ananda e voltou a observar as folhas das árvores que remexiam e emitiam um ruído calmo e prazeroso. E ali ocorreu-lhe algo que nunca havia pensado. Se nossos gestos tomam forma através de um corpo e os discursos pela linguagem, estaríamos conscientes deste poder? Quando me expresso, de onde parte esse impulso criador?

Esse questionamento passou a acompanhar Clara desde então.

***

Clara e Ananda se conheciam desde a adolescência, e há muitos anos acompanhavam as mudanças de cada uma. Naquele dia, falaram mais uma vez sobre o tempo. Relembraram histórias de quando eram jovens e imaginaram-se mais velhas. Teriam filhos? Cuidariam de gatos? Prefeririam chá ou café? Parecia que a vida, de uma maneira geral, era o assunto principal.

Mas agora, sentiam que algo destoava. As duas estavam diferentes, é certo, mas não sabiam bem o porquê. Então, Clara resolveu relatar um causo recente a Ananda.

Contou que, certo dia, foi comprar pão e percebeu que outras mulheres sorriam quando seu olhar cruzava com os delas. Antes, Clara desviaria. Mas ali, sustentou o olhar e sorriu de volta. A partir de então, algo mudou. Sentiu-se como se apresentada a uma espécie de grupo secreto, do qual ninguém falava sobre, mas que, quando se olhavam, reconheciam-se. Dias depois, pensando no ocorrido, lembrou que se encontrava tão alegre que seu corpo parecia cantar; aquilo deveria ter sido notado, foi sua tese. “Você estava transbordante”, Ananda comentou. “Na verdade, continua assim. Percebe?”.

Clara achou graça. Transbordante era um adjetivo que sempre caíra muito bem em Ananda. Tentou clarear a questão:

– Na verdade, é como se algo estivesse desobstruindo. Sinto também que, quando falo, a voz soa estranha, como se viesse de dentro. É uma sensação nova -, observou.

***

De fato, uma mudança se processava. Eram coisas miúdas, discretas, que poderiam facilmente passar despercebidas para os outros. Não para elas.

Agora, era Ananda que ouvia com atenção. Enquanto Clara falava, os pensamentos iam parecendo menos enevoados. E, diante do olhar acolhedor e silente de Ananda, prosseguiu:

– Há alguns dias, dei por observar árvores e tive a impressão de que elas dançavam. Certa vez, pude jurar que conversavam, e pensei se em algum momento soubera seu idioma, ou se um dia as entenderia. Isso tem sido corriqueiro. Nesses momentos, sinto-me tomada por uma sensação tranquila e paralisante.   

E ali, Ananda entendeu. Sentiu-se totalmente presente e compreendeu a raridade daquele momento. O que veio a seguir foi simplesmente a reverberação dessa consciência.

– Ouvi falar que os lobos, quando pressentem prazer ou perigo, ficam totalmente imóveis, em total concentração para poderem ver, ouvir e perceber o que exatamente está ali, na sua forma mais essencial. Acho que é isso, Clara.

Elas se olharam e sorriram em cumplicidade. Os braços se confundiram. Ali, havia uma beleza rara e delicada. Agradeceram por poder vivenciar momentos tão especiais e estar em companhia uma da outra. “Não há obstruções entre vozes que vêm da alma”, Clara pensou.

“Palavras que brotam de dentro são conscientes, profundas e transformadoras”, Ananda viria a escrever, dias depois.

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