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O Segredo das Águas

28/06/2017

Estive um tempo na Islândia:
Lá, onde os Touros correm livremente,
não me ofereceram carne ou instrumentos de caça;
Banharam-me em águas secretas,
ensinaram-me uma língua adormecida.

Agora, firmo os pés na terra e já não temo o fogo;
Faço das árvores minhas conselheiras
e, dos pássaros, desfruto de boa companhia.

Vejo ao horizonte uma paisagem reveladora;
E sinto-me, enfim, em uma encruzilhada:
Será chegada a hora da rendição?

[Rascunho de 2015, atualizado em 2017]

Transmutação

28/06/2017

I

Certo dia, encontrei uma árvore encravada em meu peito.
Quando a percebi, já era grande e frondosa.
Espantada em vê-la ali, já tão bem alojada,
passei então a tentar conviver com o que carregava.
Vez por outra, podava seus galhos
(e até desconfio que a tenha regado um punhado de vezes),
mas bastava um movimento a mais e ela já me limitava o passo.

II

Hoje, enxerguei novamente a árvore,
cada vez maior e mais pesada.
Com a mente mais clara e ouvidos atentos,
rogo por firmeza, mas não rigidez.
A árvore que trago no peito não sou eu.
Sei que cortar seu tronco já não é suficiente,
e, seguindo o conselho dos pássaros,
parto em busca das ferramentas necessárias.

III

arrancar raízes:
ver-me terra fofa, arada,
abrindo espaços vazios
– adentro.

Ananda

24/12/2016

come to you, river
wash my soul again

Ouvir música, pôr em dia a casa e as leituras, cozinhar e cuidar da saúde; eram assim os dias de introspecção, como costumava chamar. Os mais próximos já entendiam quando era chegado esse tempo. Ela, se antes encarava com estranhamento tal comportamento cíclico, agora já se habituara e não escondia a felicidade que sentia quando chegava a hora de suspender compromissos e despistar contatos. Mas havia exceções, é claro. Ananda era uma dessas pessoas.

O convite inesperado para ir à sua casa foi suficiente para deixá-la radiante e abandonar a solitude habitual daqueles dias. Ananda não era uma pessoa comum, Clara sentia. Era discreta, mas dificilmente passava despercebida na rua. Era corriqueiro que, à primeira vista, desconhecidos a dissessem o quanto o sorriso dela inspirava coisas boas.

De fato, Ananda era profundamente admirável, e só de estar por perto, Clara já se sentia mais serena. No entanto, naquele dia, enquanto falava com Clara, confidenciou sentimentos embaralhados. “Há um peso não sei de onde“, comentou. Parecia haver ali um medo de se dar forma, através das palavras, ao peso que carregamos, e assim olhá-lo tão brutalmente. Talvez fosse por isso que Ananda fizesse tantos arrodeios.

Clara, por sua vez, também tinha seus problemas, e o que parecia as unir era poder falar sobre tudo, inclusive as coisas mais nebulosas. Assim como Ananda, Clara era também muito amorosa, embora não demonstrasse com palavras. Mas isso não importava. A forma em que apertava o abraço chamavam atenção de Ananda. Era como se o corpo dissesse claramente o que o discurso omitia.

***

Quando conversavam, Clara costumava mais ouvir do que falar, e naquele dia não foi diferente. Estavam no parque, deitadas no chão observando a copa das árvores, quando Ananda confidenciou um prazer recente: dançar. Estava saindo mais nos últimos tempos, e dançava de tal forma que seus pés ficavam inchados no dia seguinte.É como se me comunicasse de uma forma mais sutil com as pessoas”. Ananda preocupava-se realmente em encontrar coerência e verdade no que decidisse dedicar sua energia, fosse através da dança, literatura ou teatro. Queria que meu corpo fosse canal da essência que quero pôr no mundo”, era mais ou menos o que parecia querer dizer.

Clara ficou em silêncio. Ela entendia, e naquele momento as duas pareciam conectadas de forma sincera e profunda. Olhou para Ananda e voltou a observar as folhas das árvores que remexiam e emitiam um ruído calmo e prazeroso. E ali ocorreu-lhe algo que nunca havia pensado. Se nossos gestos tomam forma através de um corpo e os discursos pela linguagem, estaríamos conscientes deste poder? Quando me expresso, de onde parte esse impulso criador?

Esse questionamento passou a acompanhar Clara desde então.

***

Clara e Ananda se conheciam desde a adolescência, e há muitos anos acompanhavam as mudanças de cada uma. Naquele dia, falaram mais uma vez sobre o tempo. Relembraram histórias de quando eram jovens e imaginaram-se mais velhas. Teriam filhos? Cuidariam de gatos? Prefeririam chá ou café? Parecia que a vida, de uma maneira geral, era o assunto principal.

Mas agora, sentiam que algo destoava. As duas estavam diferentes, é certo, mas não sabiam bem o porquê. Então, Clara resolveu relatar um causo recente a Ananda.

Contou que, certo dia, foi comprar pão e percebeu que outras mulheres sorriam quando seu olhar cruzava com os delas. Antes, Clara desviaria. Mas ali, sustentou o olhar e sorriu de volta. A partir de então, algo mudou. Sentiu-se como se apresentada a uma espécie de grupo secreto, do qual ninguém falava sobre, mas que, quando se olhavam, reconheciam-se. Dias depois, pensando no ocorrido, lembrou que se encontrava tão alegre que seu corpo parecia cantar; aquilo deveria ter sido notado, foi sua tese. “Você estava transbordante”, Ananda comentou. “Na verdade, continua assim. Percebe?”.

Clara achou graça. Transbordante era um adjetivo que sempre caíra muito bem em Ananda. Tentou clarear a questão:

– Na verdade, é como se algo estivesse desobstruindo. Sinto também que, quando falo, a voz soa estranha, como se viesse de dentro. É uma sensação nova -, observou.

***

De fato, uma mudança se processava. Eram coisas miúdas, discretas, que poderiam facilmente passar despercebidas para os outros. Não para elas.

Agora, era Ananda que ouvia com atenção. Enquanto Clara falava, os pensamentos iam parecendo menos enevoados. E, diante do olhar acolhedor e silente de Ananda, prosseguiu:

– Há alguns dias, dei por observar árvores e tive a impressão de que elas dançavam. Certa vez, pude jurar que conversavam, e pensei se em algum momento soubera seu idioma, ou se um dia as entenderia. Isso tem sido corriqueiro. Nesses momentos, sinto-me tomada por uma sensação tranquila e paralisante.   

E ali, Ananda entendeu. Sentiu-se totalmente presente e compreendeu a raridade daquele momento. O que veio a seguir foi simplesmente a reverberação dessa consciência.

– Ouvi falar que os lobos, quando pressentem prazer ou perigo, ficam totalmente imóveis, em total concentração para poderem ver, ouvir e perceber o que exatamente está ali, na sua forma mais essencial. Acho que é isso, Clara.

Elas se olharam e sorriram em cumplicidade. Os braços se confundiram. Ali, havia uma beleza rara e delicada. Agradeceram por poder vivenciar momentos tão especiais e estar em companhia uma da outra. “Não há obstruções entre vozes que vêm da alma”, Clara pensou.

“Palavras que brotam de dentro são conscientes, profundas e transformadoras”, Ananda viria a escrever, dias depois.

do baú

04/12/2016

querer bem às plantas
é quase um atestado
de ser um humano desviado.
entendo a falta que faz
aquela árvore ou o amor genuíno
de outro animal.
não que desgoste de gente,
mas por vezes parecem as árvores
mais sábias e serenas
e os gatos mais simpáticos…

Leão

02/09/2016

– Tive um sonho que me pareceu muito real. Estava em uma espécie de savana e encontrava um leão. Era grande e estava a metros de distância. Eu podia ver seus dentes, sentir seu cheiro e até tocar aqueles pelos grossos e amarelados. Era tomado pelo medo; fragmentos de toda a minha vida se passaram em segundos e pensei que poderia morrer ali. Até que, não sei bem como, me inclinei e levei minha cabeça ao chão, como se estivesse a reverenciar aquele leão. E aí algo estranho aconteceu. Eu o vi fechar os olhos, e ao abri-los li neles uma grande generosidade e compreensão. Assim eu fui tomado por um amor grandioso, e assim eu acordei.

07/12/2015

Diz-que-direi ao senhor, o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro: brota é depois.

In: Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas

Rizomáticos

13/05/2015

onde há rupturas, reconstituição;
sejamos fluxo, conjunto
e, por ora,
arribação

Correspondência

06/02/2015

Caro Piotr,

Faz anos que não te escrevo, percebo agora. Talvez nosso último encontro tenha servido para aflorar o desejo pelas longas conversas de outrora. Naquele dia tive novamente insônia e dor de cabeça; meus amigos dizem ser preocupação, e não discordo. Vejo-me vasculhando lembranças constantemente, rememorando as transformações pelas quais tenho passado e, veja, eis que te encontro ali, acenando, vívido como nos verões de antigamente.

Nesses redemoinhos de pensamentos que não me permitem dormir, penso que talvez haja algo em sua natureza que te faça assim, itinerante, imprevisível e, sobretudo, consciente. Os laços firmados são raros, dos quais você parece ter controle e saber exatamente onde começam e até onde chegarão. Se há uma lógica, não cabe a nós entendermos. Lembrando de tudo isso, percebo uma montanha dentro de ti, Piotr, que você se assegura em continuar limitando o acesso. Penso que talvez o único aprofundamento possível seja sobre si mesmo, já que há tanto a ser descoberto.

Digo isso, mas peço que não me entenda mal. Apesar de tudo, enxergo a possibilidade de amor. Num canto pequeno, pouco propício, e que parece não querer prolongar-se. Hoje penso que o amor é, em parte, escolha. Mas além disso, algo que nos foge a compreensão; uma conexão que surge sem que se perceba, apenas passível de ser vista quando já está lá, devidamente alojada. Ainda assim, mais do que no inexplicável, acredito na reciprocidade e entrega verdadeira. Há certo charme quando se percebe uma compreensão mútua, isenta de preocupações alheias àqueles que se permitem.

Curioso como, ao falar de ti, por vezes parece que falo também de mim. A cada vez que penso, mais a insônia me invade e fico a percorrer círculos. Tento pensar na respiração, numa noite estrelada na qual me debruço, e só assim começo a adormecer. Porque eis tudo, Piotr. Noite adentro, ouço o roçar dos troncos dos eucaliptos nas vizinhanças, sinto o cheiro de flores de grandes árvores desconhecidas, e é como se me chamassem por um nome que me é estranho. Atendo ao convite; permito-me e vou balançar-me também.

Desejando-te sempre bons sonhos,

Emma.

09/12/2014

Territorialista, escorregadia, relapsa, tendência-de-isolamento-periódico, desapego, não-afeto com o próximo, “com licença, estás a invadir a minha bolha!”: embora ditas com mais elegância, foram em suma as palavras dela, sugerindo que na solidão da infância aprendi a ser gente em meio aos gatos. Apesar da afronta, penso que há uma lógica, talvez um fio solto a ser percorrido em busca do novelo, embora a vontade que me venha seja de jogar todo o discurso no lixo.

Da chegada de Antúrio

07/10/2014

Até então, os dias eram cinzentos. Estava em casa há dias, chorava sem motivos. Quando Ulisses perguntou-lhe o que havia, não soube o que dizer. Sentia as lágrimas virem aos olhos sem sentido. Na última vez que se atreveu a sair para resolver pendências, há cerca de três dias, retornou chorando copiosamente, após ter sido abordada por uma criança a lhe pedir dinheiro no semáforo. Não que crianças vivendo em situação de rua não fossem motivos para tristeza, apenas não naquelas proporções – agarrava-se àquele pensamento e entrava num círculo vicioso que o conectava a todas as desgraças do mundo.

Ulisses tinha bom coração e uma sensibilidade ímpar, e pressentia quando as coisas não andavam bem. Ouvindo a voz embargada de Ana, convidou-a a experimentar o almoço que estava preparando. Diante da recusa, intensificou a abordagem: pediu que viesse. Ana, reerguendo-se e tentando domar a pesada sensação que a prendia à cama, atendeu ao pedido e, em menos de uma hora, estava à mesa, junto a Ulisses e Emília.

Após a refeição, deitaram-se e falaram sobre o passado. Emília tinha voz tão leve e transmitia paz comparável a Ulisses. Por um momento sua fala a fez pensar no quanto havia caminhado e o quanto se sentia grata de estar ali, ao lado de tão boas companhias. Ana teve ainda a impressão de que os dois formariam um belo casal, apesar de serem apenas bons amigos. A acolhida lhe aliviou em parte o mal-estar, e finalmente foi capaz de adormecer tranquilamente.

***

Quando já se preparava para ir embora, Ulisses foi ao quintal e lhe entregou uma das plantas que, nascida involuntariamente no terreno, fora transplantada ainda ontem para um pequeno vaso. De seu nome e cuidados necessários, não soube dizer, mas orientou que a observasse e o cultivo fosse feito de acordo com a sucessão dos dias. “Não por acaso veio, não por acaso irá”, ele pensou.

O fato é que a planta serviu-lhe de companhia dali em diante. Tinha folhas alongadas e flores que lhe remetiam a um copo-de-leite. Os dias sucediam-se e sentia-se paulatinamente melhor. Passou a acreditar em suas características de cunho espiritual. Leu inúmeros livros em busca de indícios que confirmassem a suspeita, mas nada encontrou que se assemelhasse àquela planta. Resolveu então aproveitar o ensejo para mudar de ares e, como que numa iniciação, banhou-se em sal grosso. Olhava o horóscopo e, aos poucos, habituava-se à nova rotina: exercícios físicos, acordar cedo, alimentar-se bem. Tentava, embora com dificuldade, aprender a arte da culinária. Pensava que se não havia caminho pela consciência, que o bem-estar de seu corpo pudesse conduzir à tranquilidade almejada.

Cerca de três semanas depois, Emília a telefonou. Disse que se encontrava nas redondezas e perguntou se seria possível almoçarem juntas. Cumprimentaram-se brevemente e, dali a alguns instantes, Emília, junto a Ulisses e Yuri, ajudavam Ana na cozinha. Yuri comandava o fogão: perguntou se havia manjericão e, transparecendo certo orgulho, Ana o conduziu à pequena horta que começara a cultivar. Admirando a elegância do lugar, Yuri elogiou o bom gosto da amiga e, antes de voltar aos trabalhos, vislumbrou, no canto do cômodo, a imponente a planta que Ulisses presenteara Ana tempos atrás: as flores haviam crescido e parecia bastante saudável. Yuri surpreendeu-se por nunca ter visto um exemplar de tamanha beleza, mas orientou que, a despeito da elogiável adaptabilidade da espécie, Ana tivesse cuidado com o excesso de exposição ao sol. Acrescentou mais alguns conselhos sobre paisagismo, correta adubação e cultivo sustentável cujo sentido Ana não conseguiu compreender. Do lado de fora, um belo dia ensolarado. Em sua cabeça, uma palavra apenas: Antúrio era seu nome.