09/12/2014

Territorialista, escorregadia, relapsa, tendência-de-isolamento-periódico, desapego, não-afeto com o próximo, “com licença, estás a invadir a minha bolha!”: embora ditas com mais elegância, foram em suma as palavras dela, sugerindo que na solidão da infância aprendi a ser gente em meio aos gatos. Apesar da afronta, penso que há uma lógica, talvez um fio solto a ser percorrido em busca do novelo, embora a vontade que me venha seja de jogar todo o discurso no lixo.

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Da chegada de Antúrio

07/10/2014

Até então, os dias eram cinzentos. Estava em casa há dias, chorava sem motivos. Quando Ulisses perguntou-lhe o que havia, não soube o que dizer. Sentia as lágrimas virem aos olhos sem sentido. Na última vez que se atreveu a sair para resolver pendências, há cerca de três dias, retornou chorando copiosamente, após ter sido abordada por uma criança a lhe pedir dinheiro no semáforo. Não que crianças vivendo em situação de rua não fossem motivos para tristeza, apenas não naquelas proporções – agarrava-se àquele pensamento e entrava num círculo vicioso que o conectava a todas as desgraças do mundo.

Ulisses tinha bom coração e uma sensibilidade ímpar, e pressentia quando as coisas não andavam bem. Ouvindo a voz embargada de Ana, convidou-a a experimentar o almoço que estava preparando. Diante da recusa, intensificou a abordagem: pediu que viesse. Ana, reerguendo-se e tentando domar a pesada sensação que a prendia à cama, atendeu ao pedido e, em menos de uma hora, estava à mesa, junto a Ulisses e Emília.

Após a refeição, deitaram-se e falaram sobre o passado. Emília tinha voz tão leve e transmitia paz comparável a Ulisses. Por um momento sua fala a fez pensar no quanto havia caminhado e o quanto se sentia grata de estar ali, ao lado de tão boas companhias. Ana teve ainda a impressão de que os dois formariam um belo casal, apesar de serem apenas bons amigos. A acolhida lhe aliviou em parte o mal-estar, e finalmente foi capaz de adormecer tranquilamente.

***

Quando já se preparava para ir embora, Ulisses foi ao quintal e lhe entregou uma das plantas que, nascida involuntariamente no terreno, fora transplantada ainda ontem para um pequeno vaso. De seu nome e cuidados necessários, não soube dizer, mas orientou que a observasse e o cultivo fosse feito de acordo com a sucessão dos dias. “Não por acaso veio, não por acaso irá”, ele pensou.

O fato é que a planta serviu-lhe de companhia dali em diante. Tinha folhas alongadas e flores que lhe remetiam a um copo-de-leite. Os dias sucediam-se e sentia-se paulatinamente melhor. Passou a acreditar em suas características de cunho espiritual. Leu inúmeros livros em busca de indícios que confirmassem a suspeita, mas nada encontrou que se assemelhasse àquela planta. Resolveu então aproveitar o ensejo para mudar de ares e, como que numa iniciação, banhou-se em sal grosso. Olhava o horóscopo e, aos poucos, habituava-se à nova rotina: exercícios físicos, acordar cedo, alimentar-se bem. Tentava, embora com dificuldade, aprender a arte da culinária. Pensava que se não havia caminho pela consciência, que o bem-estar de seu corpo pudesse conduzir à tranquilidade almejada.

Cerca de três semanas depois, Emília a telefonou. Disse que se encontrava nas redondezas e perguntou se seria possível almoçarem juntas. Cumprimentaram-se brevemente e, dali a alguns instantes, Emília, junto a Ulisses e Yuri, ajudavam Ana na cozinha. Yuri comandava o fogão: perguntou se havia manjericão e, transparecendo certo orgulho, Ana o conduziu à pequena horta que começara a cultivar. Admirando a elegância do lugar, Yuri elogiou o bom gosto da amiga e, antes de voltar aos trabalhos, vislumbrou, no canto do cômodo, a imponente a planta que Ulisses presenteara Ana tempos atrás: as flores haviam crescido e parecia bastante saudável. Yuri surpreendeu-se por nunca ter visto um exemplar de tamanha beleza, mas orientou que, a despeito da elogiável adaptabilidade da espécie, Ana tivesse cuidado com o excesso de exposição ao sol. Acrescentou mais alguns conselhos sobre paisagismo, correta adubação e cultivo sustentável cujo sentido Ana não conseguiu compreender. Do lado de fora, um belo dia ensolarado. Em sua cabeça, uma palavra apenas: Antúrio era seu nome.

24/09/2014

Quando só, ele se consolava com o sonho dos quartos infinitos. Sonhava que se levantava da cama, abria a porta e passava para o outro quarto igual, com a mesma cama de cabeceira de ferro batido, a mesma poltrona de vime e o mesmo quadrinho da Virgem dos Remedios na parede do fundo. Desse quarto passava para outro exatamente igual, cuja porta abria para passar para outro exatamente igual, e em seguida para outro exatamente igual, até o infinito. Gostava de ir de quarto em quarto, como numa galeria de espelhos paralelos, até que Prudencio Aguilar lhe tocava o ombro. Então voltava de quarto em quarto, acordando para trás, percorrendo o caminho inverso, e encontrava Prudencio Aguilar no quarto da realidade.

In: Gabriel Garcia Márquez, Cem Anos de Solidão.

Tênue

28/07/2014

das sombras
distancio-me
na tentativa de fazer
boa semente
vingar

do sol
peço licença
quando há
a chuva
a me acobertar

Lição

03/05/2014

— Que é que eu faço, é de noite e eu estou viva. Estar viva está me matando aos poucos, e eu estou toda alerta no escuro.

Houve uma pausa, ela chegou a pensar que Ulisses não ouvira. Então ele disse com voz calma e apaziguante:

— Agüente.

In: Uma Aprendizagem, Clarice Lispector. 

Peixes

08/03/2014

tua lembrança;
ponta de lança
jogada ao mar

em ti, profusão;
mergulho fundo
em mistério vão

[Peixes, ou Chumbo em Palma de Mão]

Fissura

17/11/2013

A ti, vinda do desterro: qual tua fronteira em mim?

Estéril

10/11/2013

que desconsolo deve ser
um filho crescer
à revelia de seus olhos

mas você, um vir-a-ser,
será feito de papel e tinta
– que amasso

eu, deixo que falem:
em termos de procriação
assumo a dor do parto
de mais esta abstenção

Tomaz

07/10/2013

Quem foi Tomaz?, a pergunta me bateu como um golpe. Quem foi Tomaz?, repeti inúmeras vezes para mim mesmo. Uma imagem turva no meio da noite. Um recorte de jornal perdido em minha gaveta, agora forçosamente rememorado por Patrícia.

***

Que corpo era aquele ao seu lado? Desprovido de cheiro, de passado, reduzido a um nome – Tomaz era seu nome -, um belo e excêntrico nome, que fazia Marcelo crer que deveria ser estrangeiro. No dia seguinte, depois de Tomaz ter lhe deixado na parada de ônibus e ir embora sem que tivessem partilhado algum contato, pensou que deveria ter ao menos indagado sua proveniência, assim teria o que contar à Beatriz quando regressasse em casa. Agora, já com Patrícia, a sombra e a memória de Tomaz lhe pesavam.

***

Naquela noite, após a embriaguez que fez Marcelo despencar sobre a cama, Tomaz sentou-se e o observou. Ainda não tinha sono, às 02h43 da manhã. Sacou a câmera e tirou algumas fotografias do quarto. Estava escuro e aumentou o ISO o quanto pôde; ficará granulado, pensou, e granuladas eram também suas lembranças da noite anterior. O efeito ainda estava latente, mas não o suficiente para encobrir a intuição de que deveria ter algo a se agarrar, algo que pudesse atestar a sua presença ali; eram apenas dois estranhos, compartilhando a mesma cama?

***

Há muito que fotografias deixaram de ser especiais. De registro, tornaram-se instrumento que atesta a nós nossa ausência; uma imagem oca, que ora nos sussurra: veja, você esteve ai, mas não teve tempo de desfrutar o instante verdadeiramente. Esse agora parece ser nosso mais constante medo: apreciar a vida em parcelas; era o que Marcelo pensava naquele momento, quando relembrava Tomaz, quando reconstituía seu corpo, quando olhava aquela fotografia de jornal que trazia estampado um rosto outrora próximo, e que agora fazia Patrícia lhe indagar: Quem foi Tomaz, Marcelo?

Dente-de-leão

22/07/2013

“Sou assim mesmo, entende?”, ela me disse, com aquela voz tranquila e cadenciada que parecia incorruptível, olhando-me de uma forma que sugeria estar falando de algo que de modo algum lhe desagradava, “gosto de inventar distrações porque assim me parece que estou a sair do lugar”.

Estávamos distante da cidade; convenceu-me a ir ver as mudas que plantáramos um punhado de meses atrás, em uma das últimas vezes que tínhamos saído juntos. Adorava flores, e mostrou-se decepcionada por ali nada encontrar. “Não me surpreende que não tenham vingado”, pensei comigo mesmo, “talvez assim compreenda que há de se cuidar do que se semeia”, mas não ousei externar tão rancorosa observação.

Os momentos passados com M. eram sempre um tanto juvenis, é certo, e eu via certa graça nisso. Seu plano aquela tarde era mudar um pouco de ares; para isso, levou alguns papéis e tintas – explicou-me que estava a se entreter com a pintura e o desenho – e entregou-me algumas folhas. Não poderia dizer que não possuía destreza para a atividade, mas preferi me dedicar às palavras; apenas ensaiei uns tantos rabiscos, talvez algo servisse para um futuro livro, afinal.

Para mim, bastava-me estar ao seu lado. Era deveras encantadora; quando falava, sua expressão e as pausas de seus lábios soavam como uma dança. Não entendia o motivo de ela me querer por perto, mas me permitia apenas desfrutar e observá-la em sua estranha vivacidade, envolvendo-me nos seus fortuitos gestos.

Passamos, de fato, a tarde ali. Em dado momento, afastou-se para colher algumas folhas secas e, quando voltou, trouxe-me de presente uma mescla de pintura e colagem com uma daquelas plantas cujas pétalas, diante do mais brando sopro, se desfazem no ar. “Dente-de-leão, não conhece?”, e foi assim que a conheci.

* * *

Como de costume, é preciso certo tempo para que se compreenda e dê por passado o que antes teimava em permanecer às sombras. Anos depois do ocorrido, já me dedicando a escrever, de fato, o livro que começara a idealizar naqueles tempos, dei por fé do presente, aquele dente-de-leão desfeito em cinzas dentro d´uma caixa perdida em meu quarto.

Foi nesta noite que, subitamente – e talvez seja, de fato, possível afirmar com tamanha ousadia –, compreendi o incompreensível. Aceitando o mistério no qual via-me envolto e vendo com gratidão todas as dúvidas que não viriam a se esclarecer dali em diante, esmiucei em pedaços aquele papel, fui à janela e soprei-o para longe.

Não me recordo do que pensei, apenas um enorme bem-estar se apoderou de mim. Dormi e sonhei com as pétalas de um dente-de-leão chegando às mãos de M. que, a quilômetros de distância de onde me encontrava, sentiu um arrepio e, demonstrando uma cumplicidade que nunca viríamos a esclarecer, sorriu para mim.