Ao chegar na cidade um tal de sr. K., logo vi que se tratava de um ser notável. Quando nos tornamos próximos, soube ter um grande conhecimento a respeito das coisas do mundo, e que empregava seu tempo levando uma vida que qualquer atribuiria ao cotidiano vivido por ‘grandes intelectuais’. No entanto, embora tivesse bons modos e proporcionasse conversas interessantes, a verdade é que não era do agrado de todos.
Por vezes, sucedia de organizar grandes festas em minha casa a fim de reunir amigos de longa data, cujo esforço em manter próximos a mim era pelo apreço à companhia, respeito às memórias que tínhamos em comum, ou apenas por mero hábito. Foi em uma dessas ocasiões, na tentativa de inseri-lo em meu círculo de amizades, que o sr. K. começou a se tornar conhecido.
Mas isso não significa dizer que não era notado; afinal, impossível era não reparar nas suas maneiras um tanto excêntricas. Por vezes, irritava-se com a forma com que as pessoas seguravam a xícara de chá, deixando o mindinho estendido; noutras, era o som da world new music que dizia desagradar seus delicados ouvidos. “É preciso que eu lhe introduza à boa música”, disse-me várias vezes, e ao contrário do que se possa pensar, as ressalvas do Sr. K. a respeito de minhas inclinações musicais me divertiam bem mais do que causavam aborrecimentos.
Mas depois que sua presença passou a se tornar freqüente em meus salões, começou meu mais recente amigo a adotar um comportamento inesperado; é que o sr. K. deixava transparecer que julgava-se bastante diferente de todos os demais, o que não passou despercebido e tornou-se mais tarde sua marca registrada, sendo motivo de pilhéria entre meus amigos.
Recordo-me em especial de um episódio que me fez perceber muito bem algumas nuances nunca antes observadas em relação ao sr. K. Era uma dessas noites em que nada acontece, em que todos querem apenas se divertir, dançar e falar, sem precisar se adentrar em assuntos mais sérios. Quando não se tratava de mera formalidade, as conversas em geral se fixavam nas homéricas bebedeiras vividas na juventude.
Essa postura de todo não era de agrado do sr. K., que por sinal nunca chegou a estreitar laços com o álcool. Então, não raro, em torno de uma conversação a respeito de vínculos em comum – “Sabe dizer se a srta. F. virá? Por onde andará o sr. B.? Soube que comprou uma casa no campo; Oh!, precisamos conhecê-la!” -, o sr. K. deixava claro seu desprezo, alfinetando os presentes com frases ininteligíveis. Muitos deles, já fatigados pelo ar de arrogância e o tom professoral que meu amigo adotava, não lhe davam ouvidos para não se aborrecerem; e, poupando-me de maiores constrangimentos, continuavam a comentar o quão bonita estava a decoração da casa naquele dia, recriminando as roupas escolhidas pelos demais, ou tentando descobrir quem seriam aqueles novos rostos que acabavam de adentrar no salão principal.
Às vezes sucedia de um desconhecido, não tendo receio de se passar por ignorante e por não conhecer bem as tensões que se travavam na casa, perguntava o que afinal o sr. K. queria dizer com aquelas palavras aparentemente sem sentido. O sr. K., então, exibindo um largo sorriso, criticava sutilmente os presentes comparando suas condutas àquelas que lhe pareciam admiráveis, e começava a contar histórias de antigas dinastias de longínquos países que absolutamente ninguém no saguão jamais tivera ciência de ter existido. Tamanha alegria era suplantada raríssimas vezes, apenas quando alguém entendia as entrelinhas e ria da piada, o que o fazia muito provavelmente considerar que o risonho estivesse em um patamar mais elevado do que os demais.
Foi por assumir tal comportamento que o sr. K. foi naturalmente se afastando das nossas freqüentes reuniões. Por vezes dava por fazer testes comigo também. Mas embora tivesse ciência de seus intuitos, não levava muito a sério. É curioso; rememorando esse período de minha vida, parece-me que o sr. K. estava mais próximo de mim do que qualquer outro, e, para adornar ainda mais este momento de nostalgia, dou-me conta de como nossa afeição era isenta de interesses – o princípio de muitos laços que se firmam – , e como éramos capazes de nos divertir, acima de tudo.