05/02/2010 por Diana Coelho

“Vamos! Não devemos parar por aqui, por mais doces que sejam estas coisas armazenadas, por mais conveniente que esta morada pareça, não podemos deter-nos aqui; por mais seguro que seja este porto e por mais calmas que sejam estas águas, aqui não devemos ancorar; por mais acolhedora que seja a hospitalidade ao nosso redor, é permitido a nós recebê-la por um lapso de tempo…”

- pai, em quantos extraordinários mundos terei de repousar ainda nesta longa cruzada, quantas mais terras se descortinarão frente a mim antes que chegue o tão almejado vôo final?

- não importa, desde que desfrutes bem da água e sombra que lhe proporciono, desde que encontres sempre janelas repletas de belas paisagens, campos floridos e doces frutos à sua espera, estarás bem. e se acaso acordares alguma noite num intenso desvario, lembre-se dessas palavras e de que o céu estrelado não se prolonga, logo desvanece. até lá, descanse bem, e delicie-se sem preocupações com a exuberância dessa enorme jornada por ti empreendida…

[novembro de 2009]

02/01/2010 por Diana Coelho

“…sim, eu, o extraviado, eu, o individualista exacerbado, eu, o inimigo do povo, eu, o irracionalista, eu, o devasso, eu, a epilepsia, o delírio e o desatino, eu, o apaixonado, eu, o pavio convulso, eu, acentelha da desordem, eu, a matéria inflamada, eu, o calor perpétuo, eu, a chama que solapa, eu, o manipulador provecto do tridente, eu, que cozinho uma enorme caldeira de enxofre, eu, sempre lambendo o beiço co’a carne tenra das crianças, eu, o quisto, a chaga, o cancro, a úlcera, o tumor, a ferida, o câncer do corpo, eu, tudo isso sem ironia e muito mais, mas que não faz da fome do povo o disfarce pro próprio apetite…”

Trecho de Um Copo de Cólera, Raduan Nassar.

Camélia

19/12/2009 por Diana Coelho

- Tome esta flor.
- Para quê?
- Para devolvê-la a mim.
- Quando?
- Quando murchar.
- Você quer dizer…amanhã?
- Está bem, amanhã.

[Giuseppe Verdi, em Libreto de la traviata]

Quando a jovem Camélia fez tal proposta, não achava que Alfredo aceitaria tão facilmente. Mas a felicidade do dia seguinte foi tamanha que, em comemoração, juntou-se aos jasmins, cravos e lírios que encontrou no jardim e dançou, numa festa que só cessou quando os raios de sol surgiram e o canto do galo ecoou por toda a vizinhança.

22/11/2009 por Diana Coelho

- Mas você nem chegou a criar raízes! – exclamou a lagarta.

A plantinha, ao ouvir tal coisa, fez como se fosse murchar. Arrependendo-se do que acabara de dizer, a lagarta logo emendou, na tentativa de corrigir-se:

- Calma, é realmente muito cedo e sei que leva tempo para que plantas como você se fixem sem temor em solos tão impermeáveis. Sei que a terra é dura, sei que o sol castiga, mas sei também que tens toda a força necessária para crescer e me dar a sombra que necessito…

12/11/2009 por Diana Coelho

Carmen sonhava, traçava planos solitários e dizia que iria viver de flores num interior qualquer. E não é que, quando ninguém mais esperava, ela apareceu de malas prontas? Me ligou à meia-noite, disse estar no aeroporto, só aguardando o alto-falante anunciar o vôo 452 da companhia aérea que a levaria ao Chile dentro de duas horas.  “Liguei só para te dizer tchau”. Era estranho receber aquele telefonema em plena madrugada do dia 13, ainda mais após tanto tempo que não nos falávamos.  Permaneci calada por não saber o que dizer, e após um minuto de silêncio ela desligou. Imaginei Carmen sentando próximo à janela, fileira D, seguramente no assento número 13. E, naquele momento, desejei que não dormisse em sua viagem, que notasse as nuvens que descortinariam a manhã seguinte, que visse os pássaros que encomendei aos céus, na esperança de que se parecessem com as histórias que ela me narrava, todas as noites, antes de dormir.

11/11/2009 por Diana Coelho

“Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar”

Saiu de casa às 11h em ponto, pegou o ônibus e partiu, sem deixar palavras ou lembranças. No quarto em que, minutos antes, fingia dormir, Amélia chorava baixo, tentando conter a dor que viria a crescer pela falta de despedida. À noitinha, procurou Margarida que, ciente da perda da irmã, enlaçou-a com toda ternura que foi capaz de exprimir e entoou, muito pertinentemente, à Amélia:

“Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar…”

18/08/2009 por Diana Coelho

“Descobri que não me busco ou, se me busco, é sem vontade nenhuma de me achar, mudando de caminho cada vez que percebo uma luz. Fuga, o tempo todo fuga, intercalada por períodos de reconhecimento. Suavizada às vezes, mas sempre fuga.”
Caio Fernando Abreu

Acho que a única coisa que nos assemelha é essa inadequação, Mayra. Às vezes acho que deveríamos nos unir. Noutras, penso que, na realidade, queremos estar cada vez mais sós, como se a solidão nos lembrasse diariamente que há algo maior a ser buscado. E que, mesmo  que nos distanciemos cada dia mais de nosso objetivo, ainda assim essa busca é necessária – seja ela qual for.

Dos tempos que lá passei…

09/08/2009 por Diana Coelho

Da França, só trouxe lembranças. Ainda guardadas. Nada de perfumes, vinhos ou outras especiarias, embora me aconselhassem. De lá, guardei cheiros; logo eu, não-olfativa como sou. Ainda hoje reconheço o odor úmido dos queijos embolorados, da cozinha apertada, das caixas de chocolate e das HQ’s encaixotadas. Dos parisienses, me recordo da velocidade com que andam, dos sorrisos engessados pela falsa educação, do cansaço que todos exibem. Metrôs sujos. Tristeza nos rostos imigrantes. Loucura nos olhos bêbados.

Na França de minhas memórias, só as crianças são felizes.

algumas pessoas nunca tiram férias, já outras…

23/07/2009 por Diana Coelho

É lugar-comum pessoas afirmarem que não são uma, e sim várias – e isso vai de Walt Whitman à minha mãe,  quando inspirada por sensações clariceanas. E eu, como nunca fujo à regra, ontem fui dormir com o pensamento fixo que eu posso me separar em três padrões comportamentais que, infelizmente, não sei bem delimitar.

Grandes produções são frutos de grandes extremos, certo? Mas me encontro em uma situação de tão intenso equilíbrio que nada que produzo me satisfaz. Então, cedendo aos apelos do meu adormecido lado criativo (que não aflora por mais que eu me esforce), passarei alguns tempos sem publicar nada. Bem melhor do que tornar público algo não digno de ser lido.

07/07/2009 por Diana Coelho

- Cansei.
- Cansou?
- É.
- Cansou como?
- Não sei…

Pensei em lhe perguntar “Cansou do quê?”, mas não me atrevi por saber que ela precisamente se cansara de mim.