provincianismos

25/01/2012

os postes da metrópole
fascinam os transeuntes.
já não são luzes o que vêem,
mas manifestações extraterrenas.

há de ser registrado, da forma que o for.
há de ser exaltado, seja por quem for.

o torpor propaga-se com rapidez:
“deslumbre-se você também!”, gritam em plenos pulmões.

- multiplicai-vos! -, incita também a metrópole.
e a paulicéia desvairada agradece a atenção.

[arcadismos à parte, estamos bem.]

Teresa

22/01/2012

Pela janela, a chuva ameaçava cair.

- Gostaria de esperar mais um pouco – disse, dando a entender que era meramente por causa do mau tempo.

Estávamos deitados naquele tapete de crochê há horas, e mesmo assim nenhum de nós parecia se importar. De minha parte, confesso que gostava de passar os domingos dessa forma, preguiçosamente. A barriga reclamou um pouco e me dei a liberdade de ir à cozinha preparar um leite quente. Fazia um vento frio; deixei a panela esquentando e voltei para o aconchego das cobertas. Aproveitei e pus um disco do Pink Floyd que eu não conhecia pra tocar.

- Dizem que o joelho é o espelho do corpo – disse, fixando o olhar de uma forma que me deixou incomodada. – O seu não é dos mais bonitos.

De vez em quando, Luiz tinha dessas coisas; aquele, por exemplo, era o tipo de comentário que para mim era completamente desnecessário, tanto quanto os que se sucederam: começou a discorrer sobre a beleza feminina, sobre o gingado das mulheres e explicar por que preferia àquelas que pareciam flutuar.

Quis desviar do assunto, mas não vinha nada em mente. Notei que, acima de nós, despencava uma samambaia. Fiquei pensando nela por alguns segundos. Estava um pouco murcha e parecia precisar de água. Lá fora, no alpendre, vi que alguns passarinhos procuravam abrigo. “Não importa”, pensei, “levanta, toma teu leite e vai resolver tuas coisas.” Afinal de contas, não era justo culpá-lo por meu aborrecimento. Quando estava prestes a me levantar, senti Luiz tocar meu braço.

- Teresa, olha. Acho que vai fazer muito frio. Tava pensando que, se você quiser, a gente pode ficar por aqui até amanhã.

Ele sorriu e me deu um beijo. A chaleira começou a apitar. Os pingos bateram na janela.

De fato, choveu bastante naquela noite.

cântico para afugentar morcegos

09/01/2012

imerge em tua desgraça.
descalço, na noite silenciosa,
ponha-te próximo a águas cristalinas
e cala-te.
deixe que os demônios venham.

concentra-te no teu corpo, teus pensamentos
encara o que evitas.
no que deixaste de pensar?
quem pôs poeira em teus ouvidos? o que temes ver?
escuta-te.
assim perceberás que brumas criam raízes
e que aquilo que pensas enxergar nada mais é do que a tua cegueira.

14/12/2011

…e quando perceber, pequena ana, que o suposto medo da perda nada mais é do que receio de ver-se sem chão, lembre-se do plano que forjamos pelo caminho; é do pó que consolidaremos nosso refúgio.

08/12/2011
I’m living in an age
Realizing I’m dancing
With the one I love
But my mind holds the key
 
Pode se achegar, Orlando. Por estas bandas, falar sozinho é quesito para normalidade. Entre nativos, calar-se não é manifestação de discordância ou motivo para constrangimento. Faça coro ao estranho hábito de observar aqueles que se encontram à nossa frente! Segure minha mão; falta pouco para aportar em solo seguro –  onde trapaças não são permitidas, e cuja idolatria consiste no exercício do Respeito.

do you?

30/11/2011

sem muitas palavras, ballad of a thin man:

 

prevejo;

13/11/2011

chega um ponto em que as paredes parecem se estreitar cada vez mais, e os pesadelos se tornam tão recorrentes que você até esquece que imagens grotescas não são aquilo que se convencionou chamar de sonhos…

do meu íntimo, sobre o teu silêncio bruto.

06/11/2011

em pouco tempo, murcharam as flores do vaso. solou o bolo que deixei esfriar na janela. encheu de poeira o estofado novo. em pouco tempo, sob teu silêncio bruto, tentei reverter o irreversível. mudei a mobília para deixar entrar ar. catei as migalhas de pão espalhadas pela casa. enfrentei os cupins e o vazamento do teto; pela primeira vez, me vi disposta a solucionar todos os problemas que se apresentavam. mas você, sempre brusco, não quis esperar para ver as flores que a primavera anunciava. foi quando então eu entendi o que queria dizer aquele teu silêncio bruto.

[in: anotações aleatórias que pedem pra sair da gaveta]

29/10/2011

Pros que pensam em ir embora:

“Mesmo sob um simples ponto de vista realista, as terras que desejamos ocupam a cada momento muito mais espaço em nossa vida verdadeira do que a terra onde efetivamente nos achamos. Se eu mesmo tivesse prestado mais atenção, naquela época, ao que havia em meu pensamento quando pronunciava as palavras “ir a Florença, a Parma, a Pisa, a Veneza”, por certo me daria conta de que aquilo que eu via não era absolutamente uma cidade, mas alguma coisa de tão diferente de tudo quanto conhecia, de tão delicioso, como o poderia ser para uma humanidade cuja vida sempre houvesse decorrido em fins de tardes de inverno esta maravilha desconhecida: uma manhã de primavera.”

In: Em busca do tempo perdido, Proust.

Tudo o que sei sobre o sr. K.

29/10/2011

Ao chegar na cidade um tal de sr. K., logo vi que se tratava de um ser notável. Quando nos tornamos próximos, soube ter um grande conhecimento a respeito das coisas do mundo, e que empregava seu tempo levando uma vida que qualquer atribuiria ao cotidiano vivido por ‘grandes intelectuais’. No entanto, embora tivesse bons modos e proporcionasse conversas interessantes, a verdade é que não era do agrado de todos.

Por vezes, sucedia de organizar grandes festas em minha casa a fim de reunir amigos de longa data, cujo esforço em manter próximos a mim era pelo apreço à companhia, respeito às memórias que tínhamos em comum, ou apenas por mero hábito. Foi em uma dessas ocasiões, na tentativa de inseri-lo em meu círculo de amizades, que o  sr. K. começou a se tornar conhecido.

Mas isso não significa dizer que não era notado; afinal, impossível era não reparar nas suas maneiras um tanto excêntricas. Por vezes, irritava-se com a forma com que as pessoas seguravam a xícara de chá, deixando o mindinho estendido; noutras, era o som da world new music que dizia desagradar seus delicados ouvidos. “É preciso que eu lhe introduza à boa música”, disse-me várias vezes, e ao contrário do que se possa pensar, as ressalvas do Sr. K. a respeito de minhas inclinações musicais me divertiam bem mais do que causavam aborrecimentos.

Mas depois que sua presença passou a se tornar freqüente em meus salões, começou meu mais recente amigo a adotar um comportamento inesperado; é que o sr. K. deixava transparecer que julgava-se bastante diferente de todos os demais, o que não passou despercebido e tornou-se mais tarde sua marca registrada, sendo motivo de pilhéria entre meus amigos.

Recordo-me em especial de um episódio que me fez perceber muito bem algumas nuances nunca antes observadas em relação ao sr. K.  Era uma dessas noites em que nada acontece, em que todos querem apenas se divertir, dançar e falar, sem precisar se adentrar em assuntos mais sérios. Quando não se tratava de mera formalidade, as conversas em geral se fixavam nas homéricas bebedeiras vividas na juventude.

Essa postura de todo não era de agrado do sr. K., que por sinal nunca chegou a estreitar laços com o álcool. Então, não raro, em torno de uma conversação a respeito de vínculos em comum – “Sabe dizer se a srta. F. virá? Por onde andará o sr. B.? Soube que comprou uma casa no campo; Oh!, precisamos conhecê-la!” -, o sr. K. deixava claro seu desprezo, alfinetando os presentes com frases ininteligíveis. Muitos deles, já fatigados pelo ar de arrogância e o tom professoral que meu amigo adotava, não lhe davam ouvidos para não se aborrecerem; e, poupando-me de maiores constrangimentos, continuavam a comentar o quão bonita estava a decoração da casa naquele dia, recriminando as roupas escolhidas pelos demais, ou tentando descobrir quem seriam aqueles novos rostos que acabavam de adentrar no salão principal.

Às vezes sucedia de um desconhecido, não tendo receio de se passar por ignorante e por não conhecer bem as tensões que se travavam na casa, perguntava o que afinal o sr. K. queria dizer com aquelas palavras aparentemente sem sentido. O sr. K., então, exibindo um largo sorriso, criticava sutilmente os presentes comparando suas condutas àquelas que lhe pareciam admiráveis, e começava a contar histórias de antigas dinastias de longínquos países que absolutamente ninguém no saguão jamais tivera ciência de ter existido. Tamanha alegria era suplantada raríssimas vezes, apenas quando alguém entendia as entrelinhas e ria da piada, o que o fazia muito provavelmente considerar que o risonho estivesse em um patamar mais elevado do que os demais.

Foi por assumir tal comportamento que o sr. K. foi naturalmente se afastando das nossas freqüentes reuniões. Por vezes dava por fazer testes comigo também. Mas embora tivesse ciência de seus intuitos, não levava muito a sério. É curioso; rememorando esse período de minha vida, parece-me que o sr. K. estava mais próximo de mim do que qualquer outro, e, para adornar ainda mais este momento de nostalgia, dou-me conta de como nossa afeição era isenta de interesses – o princípio de muitos laços que se firmam – , e como éramos capazes de nos divertir, acima de tudo.


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.